133 dias: interlúdio

Faz 133 dias que começou, ao menos aqui. Pausas são sempre bem vindas. Elas nos permitem recuperar o fôlego e reavaliar nossas perspectivas, um exercício sempre bem vindo. No fluxo quase obsessivamente frenético da vida moderna, são raros os momentos que tomamos para olhar a nossa volta e apreciar as pequenas mudanças às quais os vários mundos pessoais em que existimos estão submetidos. Por isso, façamos hoje um interlúdio. Falemos ainda do passar do tempo, mas não sob a ótica humana; falemos do passar do tempo para a Terra.

O planeta Terra está em constante evolução. Isso pode ser facilmente constatado ao se visitar uma paisagem natural qualquer. Tomemos como exemplo um rio. Rios são sistemas altamente dinâmicos, mudando minuto a minuto com base em diversos fatores, como aporte de água, tipo de sedimentos transportados, e muitos outros. Ao se retornar à um mesmo ponto em um rio após uma época de chuvas, ou mesmo após uma única chuva intensa, o observador atento notará que a disposição dos depósitos de lama às margens e dos bancos de areia no leito desse rio terá mudado; talvez a mudança seja muito pequena, mas com toda certeza existirá. Com o passar do tempo (falamos aqui em tempo geológico, ou seja, centenas a milhares de anos), essas pequenas mudanças se somam, culminando na total alteração da paisagem.

Rios são ambientes muito diversos e altamente dinâmicos. Por refletirem as propriedades do meio natural que os cercam, são encontrados em todas as formas e tamanhos . A esquerda, o rio Main, em Frankfurt, Alemanha; a direita, rio nos arredores de Mirador, Santa Catarina.

O processo geral descrito acima, isto é, o acúmulo de pequenas mudanças, culminando numa mudança de grande escala, é universal, e pode ser observado em todos os ambientes naturais. Detalhes como escala, agentes envolvidos e outros podem variar, mas a lenta e constante mudança se faz sempre presente, e segue como um dos princípios usados pelos geólogos para acessar o passado de nosso planeta.

“O presente é a chave para o passado.”

Assim disse James Hutton, considerado como um dos fundadores do que veio a se tornar Geologia, talvez a mais pura das Ciências da Terra. Aplicado de forma não literal, esse princípio possibilita reconstruir a série de pequenas mudanças que moldaram o planeta e, assim, contar sua história. Segundo ele, os processos naturais que observamos hoje permaneceram os mesmos ao longo de toda a história do planeta; portanto, podemos usar do que aprendemos por meio da observação dos meios naturais para decifrar os registros deixados pelos ambientes do passado. Voltemos ao exemplo do rio. Podemos comparar a forma como evoluem, e como essa evolução está relacionada aos depósitos sedimentares deixados por eles, aos registros geológicos de Éons passados, e assim identificar registros de rios que há muito tempo deixaram de existir.

Para um geólogo, um afloramento rochoso não é senão um livro, repleto de mistérios a serem desvendados, como nesses dois exemplos de sucessões sedimentares: algumas dessas camadas foram formadas por rios num passado distante. A esquerda, sucessões meta-sedimentares em Donegal, Irlanda; a direita, sucessões sedimentares em Mirador, Santa Catarina.

Esse processo independe de escala, e é igualmente válido tanto para coisas grandes como montanhas e rios como para coisas tão pequenas quanto um grão de areia. Um simples grão de areia é capaz de contar uma história muitas vezes mais longa do que todos os livros de história juntos, tudo sem uma palavra sequer. Todos os processos que o afetaram desde a sua formação no coração de uma câmara magmática até seu destino final sob as lentes do microscópio de um geólogo deixaram sua marca; cada grão de areia registra um sem-número de ciclos de construção e destruição de cadeias de montanhas inteiras, de escavação e preenchimento de rios, de abertura e fechamento de oceanos, entre muitos outros. E assim, de grão em grão, nosso planeta evolui. De grão em grão, desertos inteiros são esvaziados, oceanos inteiros são preenchidos, montanhas inteiras são erodidas, paisagens inteiras são reescritas.

Embora aparentemente homogêneos, um olhar mais próximo releva a enorme complexidade dos grãos de areia. Assim como rochas, também são registros físicos da história da Terra; cada um registra alguns capítulos dessa longa e complexa história em cada pequena marca, ranhura e fratura em sua superfície. A esquerda, areias de uma praia; a direita, imagem de microscópio de grãos de areia.

As marcas deixadas por esses processos vão se somando, umas sobre as outras, resultando em uma rica e complexa história. Contudo, o passar do tempo nem sempre é gentil, e os capítulos desse eterno conto são por vezes escritos uns sob aos outros, as vezes aos pedaços, tornando o registro final tudo menos confiável. Cabe o geólogo tomar o manto de detetive, e coletar evidências em tantas fontes quanto puder, a fim de revelar tantos detalhes quanto puder desse conturbado passado.

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Hely Branco

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